A primeira trinca nunca se esquece.

Não dá prá não fazer paródia, apesar de trágico, com o clássico da propaganda da adolescente que não esquece o orgulho e a satisfação de utilizar o primeiro “soutien”. A primeira trinca de uma liga ferrosa de alta liga desenvolvida numa peça também não se esquece. Em quase trinta anos trabalhando com processos térmicos, a ocorrência de trincas na operação de têmpera de aços alta liga não deveria surpreender, ou causar espanto, afinal é risco que se corre e intrínseco à natureza desta operação. A mudança de estrutura cristalina na fase sólida – austenita / martensita – resulta em incremento de volume desta da ordem de 4%. E quando, alem disso, as tensões envolvidas nessa operação se somam às tensões térmicas, variação de geometria, massa e condições de usinagem, o resultado final poderia ser deformação excessiva e até a nucleação de uma trinca. Felizmente, quando o processo térmico é adequadamente conduzido essa possibilidade é reduzida para valores ínfimos, em termos de probabilidades estatísticas, o que torna essa operação confiável e factível no “dia a dia”.
A primeira trinca catastrófica pode promover marcas indeléveis em quem trabalha com processos térmicos. Se parâmetros de processo são aplicados e conduzidos de maneira correta, por que uma trinca se desenvolveria depois de quase 1.000.000 kg de aços ferramenta temperados em quatro anos de atividades? Outro paralelo que se poderia fazer seria por que o código genético da Pessoa traria um defeito para um câncer se manifestar 40 anos mais tarde? Por que depois de uma companhia aérea construir 700 aviões a jato um destes cai? Sabe-se do risco inerente à operação de têmpera: deformação e trinca. Mas não há como escapar disso, o processo precisa ser realizado para permitir a utilização de aços com melhores propriedades mecânicas, elétricas e magnéticas. Contudo, quando uma empresa é criada para prestar serviços de processos térmicos o ambiente externo que encontra não é confortável e deve enfrentar muitos desafios. Existem as “cascas de bananas” espalhadas pelo setor público, involuntário, ou não, por exemplo, legislação tributária confusa e fonte de conflitos diversos. A concorrência desleal com fabricantes de aços que tem no negócio de serviços de tratamento térmico como erro estatístico na futuramente total; ou a empresa que se esconde na denominação “entidade de ensino” para importar equipamentos sem impostos justos e vender serviços pagando apenas o imposto municipal. Para o usuário, ótimo, mas benefícios indevidos, demandas exageradas e concorrência desleal atenderiam à boa ética? A energia acumulada e liberada no surgimento de uma trinca tem essa capacidade de promover elucubrações diversas e distantes.
O processo térmico de têmpera tem riscos e isto não é novidade. Se parâmetros de processo aplicados e utilizados corretamente este será “objeto”, “não sujeito”, para potencializar um mínimo defeito e produzir uma trinca: uma inclusão no lugar errado (próxima à superfície, por exemplo), segregações, usinagem agressiva e mal executada, projeto da peça mal formatado, variação de geometria e massa acentuadas da peça, cantos vivos, etc... Assim, quando a trinca surge é preciso aprender com a sua ocorrência, óbvio. Necessária uma leitura holística para analisar toda a cadeia: aço, usinagem, projeto e parâmetros de processo. E nessa cadeia todos compartilham responsabilidades. Não dá prá escapar e transferir para o “outro”, facilitando as coisas para si mesmo, evitar aceitar as evidências e dar por sabido o que não se conhece.
E frente a tudo isso, inevitável indagar: valeria a pena? Refugio-me no argumento de Fernando Pessoa: “tudo vale a pena se alma não for pequena”. Como a vida que não é preciso, os riscos continuam para processos térmicos de têmpera, que é preciso, inclusive trincas. É isso!

Comentários

  1. Creio, que neste ambiente da metalurgia, vastíssimo por sinal, não cabe aos envolvidos se esconderem atrás dos seus "títulos", quando da ocorrência de eventualidades como a de uma trinca catastrófica. Neste caso, muito mais útil seria, uma boa dose de humildade e união, para que toda a cadeia pudesse aprender com o fato, divulgando e aplicando o conhecimento adquirido para que se minimizem ocorrências deste tipo.

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